Era meu aniversário, comemorado no salão de festas de um pequeno shopping que, porventura estava vazio para um estabelecimento tão movimentado e comum. Me animei quando disseram que havia um cômodo-surpresa para mim. A única condição era achar a chave. Chave esta, que estaria com o namorado da minha prima, Breno.
Andei pelo shopping à procura dele. Mas ele parecia ter evaporado e, enquanto eu vagava pelos corredores infinitos de um shopping qualquer, meus pensamentos se desenrolavam numa eterna odisseia às profundesas mais inóspitas da minha mente. Até que quando me dei conta estava num longo e vazio corredor. Neste só haviam um Banco, ao lado esquerdo, com uma bela moça dentro a digitar muito concentrada, e uma escada rolante em seu final.
Um homem a subia despretensiosamente. Ele não me pareceu nada cofiável, dei meia volta e percebi que vinham mais dois. Estava encurralada.
Todo o meu nervosismo até então oculto, revelou-se em minhas feições. Só rezava para que eles não tivessem notado. Aventurei-me numa tentativa de passar despercebida pelos dois, por infortúnio, má sucedida. Corri. Correram atrás de mim. O pânico dominou cada milímetro do meu corpo, um tremor invadiu minhas pernas, minha mente congelou. E então avistei aquela bela moça dentro do Banco. Me prendendo ao último fio frágil de esperança entrei e tentei a plenos pulmões pedir ajuda.
Imediatamente percebi que havia um vidro nos separando. Ela estava tão focada que não me ouvia, nem me via. Um dos homens me alcançou, o outro se interessou por ela e investiu contra a porta. O primeiro-homem agarrado a meu braço, sorriu, num riso cínico e ameaçador.
Reunindo o resto de força e coragem que me restavam, revidei com um certeiro e doloroso chute que atingiu sua parte mais sensível. Só bastou um e ele caiu, todavia sua insistência perdurou e suas mãos continuavam comprimindo meu braço.
Então, num acesso de fúria, o arrastei até a porta e com muita violência levei sua cabeça de encontro ao vidro. Uma, duas, na terceira batida ele me soltou, porém minha cólera não cessava. Quatro, cinco... percebendo o sangue nas paredes, na porta e nas minhas mãos, parei. Fugi. As lágrimas já percorriam meu rosto quando, correndo, avistei um grupo de seguranças...
A EPIDEMIA DO SUICÍDIO DO TRANSGÊNERO
Há 10 anos

