Pages

domingo, 3 de julho de 2011

Desvario em Sono: Premonição

Navio Petra, Domingo, 4:30 da tarde...
- Pai, já embarquei. Pode ficar tranquilo.
Ela desligou o telefone de última geração e guardou-o na bolsa. Chegando a uma área comum do navio com vista para o mar, debruçou-se no parapeito e observou a paisagem.
- Linda, não? - Perguntou uma voz viril.
Ela se virou e avistou um belo e cortês jovem. Seu sorriso era tão sedutor que a distraiu por um instante:
- Quê?
- A vista... bonita não é? Prazer sou Erick.
- Anita. É realmente uma vista muito bela.
Passaram-se alguns minutos de conversa e já pareciam amigos íntimos. Foi então que ela avistou uma nuvem ao norte. Muito escura. Carregada. Negra. Um ébano em meio a claridade do céu azulado. Um puxão interrompeu sua admiração.
- Moça! Moça! Você viu minha mamãe? - uma garotinha por volta dos seus 6, 7 anos com um cachorrinho Yorkshire aos seus calcanhares, puxava sua calça pedindo atenção.
- Não. Como sua mãe... - Sua frase foi interrompida por um trovão seguido de um vento gélido. E então a nuvem, que arrastada pelo vento já chegava à leste, precipitou. A chuva acompanhada de enormes blocos de gelo caiu como uma pedra gigante no mar, que começou um rápido recuo.
Anita já tinha ideia do que viria a seguir e percebeu que Erick também. Ele pegou a criança no colo e ela o cachorro, em seguida correram em direção as escadas. O navio era enorme e vertical como um prédio flutuante e continuava atracado. Eles subiram até o ultimo andar...
- Olha que legal! - a criança apontava para o vidro da cabine do último andar em direção ao mar.
- Meu Deus! - exclamou Erick
Uma onda gigante se formou no horizonte e vinha com grande velocidade no sentido da praia. Qualquer movimento, à essa altura, era inútil. E então a onda, arrastando tudo que vinha à sua frente, colidiu com toda força no navio.
Primeiramente a vidraça resistiu, mas logo em seguida barras de ferro arrastadas pela fúria marinha perfuraram a cabine como agulhas penetrando numa pele fina. Eles escaparam das primeiras barras e alguns estilhaços do vidro feriram seus rostos.
A água salgada invadiu violentamente o cubículo que pressionou todos contra a parede. O nível subiu rápido e em poucos segundos todos estavam submersos.  Não obstante o pior veio em seguida. Uma segunda onda concluiu o desastre. Ela assistiu a última barra atravessar o garoto e logo depois a garotinha. A sensação de câmera lenta tornou o momento ainda mais agonizante. Silêncio. Escuridão.
E então com um sobressalto ela estava de volta ao parapeito, observando a paisagem.
- Linda, não? - Perguntou aquela voz já conhecida.
Ela se virou e avistou aquele belo e cortês jovem de sorriso sedutor, mas dessa vez não a distraiu e sim a assustou:
- Quê? - Ela falou ofegante e confusa, com aquela sensação de déjà vu.
- A vista... bonita não é? Prazer sou Erick.
Anita, muito desnorteada, não conseguiu responder.
- Olá! Você está bem?
E, de supetão, a ficha caiu. Ela percebeu que tinha acabado de se deparar com algo muito maior que um simples déjà vu, acabara de ter uma premonição.
- Estou. Mas é por pouco tempo.
Ela explicou rápidamente. Ele ficou meio confuso, todavia algo na voz dela o fez acreditar. Foi então que ela avistou aquela nuvem escura, carregada, negra, ao norte. Dessa vez não houve puxão.
- Moça! Moça! Você viu minha mamãe? - a imagem da garotinha sendo perfurada perpassou seus olhos.
- Não temos tempo! Precisamos ir AGORA! - O trovão seguido do mesmo vento gélido ficaram às suas costas. Erick com a garota no colo e Anita com o cãozinho correram, mas desta vez para fora do navio.
No Estacionamento.
- Cuide bem da minha belezura, viu rapaz? - um homem bem vestido saía de sua ferrari com a chave em mãos.
 Nesse instante, Erick arrancou a chave de suas mãos, e todos entraram no carro.
- MEU CARRO! MEU BEBÊ! LADRÃO!
Eles já estavam fora do navio quando a nuvem precipitou, e o mar recuou.
Nas ruas da cidade o movimento era normal. Para fugir do trânsito pegaram uns atalhos e saíram numa estrada oposta ao litoral, saindo da cidade em direção ao interior do continente.
Acima de 300 quilômetros por hora, eles se distânciavam do mar. A garotinha carinhosamente afagava seu cachorrinho, alheia à tudo o que acontecia.
Anita olhou para trás. "Que Lindo!", pensou. Se não fosse tão assustador e trágico seria o comentário perfeito para a paisagem da cidade sendo engolida por uma onda colossal.