Abri os olhos. Eu ainda não sabia que essa noite pertubaria minha malvada essência. Caminhar é o que eu sempre faço, a procura da minha próxima vítima. Eu gosto de planejar, escolher cada detalhe, jogar. Prefiro mulheres, jovens, bonitas, saudáveis, com a jugular pulsante, geralmente prostitutas ou turistas perdidas.
A noite era ainda mais escura, já que a lua não nasceu dessa vez. Escura e deserta, o único som audível era meus passos ecoando no cimento da calçada, mas eu sou paciente.
Perto da esquina um cheiro perpassou meu olfato. Um cheiro não, O Cheiro. O inconfundível cheiro de sangue com um suave odor de algo familiar. Parei. Fechei os olhos e apreciei aquele cheiro. A essência dos deuses, a vítima perfeita..."O jogo vai começar."
Entrei na rua e vi o vulto. Bailava na noite com seu andar gracioso, silhueta esbelta, bem vestida, estonteantemente bonita.
Num piscar de olhos estava ao seu lado.
- Boa Noite. Por acaso está perdida?., ela se sobresaltou.
- Ah! Boa Noite. Não, não estou.
- E então o que faz essa hora, sozinha, na rua?
- Não costumo contar minha vida para estranhos. Se me der licença, prefiro andar só do que mal acompanhada.
Aquilo era muito estranho, não havia medo em sua voz. Nenhuma delas jamais fugiu de um diálogo noturno. Ela era diferente, mas não deixaria de ser minha vítima.
Puxei o seu braço fazendo-a virar-se. Ela protestou e em seguida olhou nos meus olhos. Nesse instante as imagens viajaram a mil por hora em minha mente. Eram todas as minhas lembranças, todas as minhas memórias.
- Pare com isso!, eu a soltei, recuei alguns passos com as mãos na cabeça.
Agora ela me analisava com uma ruga de dúvida na testa.
- Vampiro? Mas... isso é apenas uma lenda!
- Como você...? Que tipo de bruxaria é essa?
- Então existe mesmo! Você realmente é um vampiro?
- Sou. Quer dizer, não era para termos essa conversa... Perai, quem é você?
- Ninguém.
Ela voltou a caminhar e entrou num prédio abandonado. Eu ainda pertubado a segui.
-Vai amanhecer, e se as lendas estiverem certas... é melhor estar abrigado.
Minha cota de bondade já tinha ultrapassado qualquer limite aquela noite, agora estava conversando com o jantar. Ela falava demais, coisas humanas, assuntos diversos. Passaram-se horas. Ela já havia se alimentado e eu ficava cada vez mais sedento. Até que fui reconhecendo aqueles gestos, aquela voz, aquele odor familiar de tulipas... era ela!
Poucas coisas me lembravam a vida humana, mas agora eu lembrava dela e parecia recíproco. Eu não estava mais falando com o jantar. Me aproximei. De repente ela parou de falar e me olhou. "Como pude esquecê-la?"
- Você lembra?, perguntei.
Interpretei seu silêncio como um sim. E exterminei a distância entre nossos lábios. O gostinho de tutti-frutti do seu gloss ainda era o mesmo. A proximidade do seu pescoço, a pulsação de sua pele me fez exercitar meu autocontrole. Afastei-me. Percebi que ela sabia que aquela conversa não seria tão longa e só lhe restavam poucas horas.
- Não quero perder meus poucos minutos...
Nesse instante ela se aproximou e me beijou fervorosamente. Eu sabia que daquela experiência ela jamais voltaria e por uma gota de misericódia, me controlei a ponto de mantê-la o máximo de tempo viva.
O ar se tornou quente. Eu sentia seu coração, sua pulsação, seu sangue... rapidamente as roupas formavam um rastro no chão. Era estranhamente bom voltar a sentir uma sensação familiar e ao mesmo tempo tão diferente. Ela parecia conformada com seu destino e se esforçava numa tentativa de tornar seus últimos instantes mais prazerosos.
Eu sentia seu corpo nu colado ao meu. As mãos e a boca percorriam seus caminhos luxuriosos. Eu ouvia seus gemidos e sentia seus arrepios, suas veias transpareciam sua pele. A situação começava a fugir do controle. Eu não resistiria por mais tempo...
Até que seu delicado pescoço se mostrou liso e completo para mim. Sua artéria pulsava com a passagem do sangue cheiroso e delicioso...
Grito, era como música para meus ouvidos. Ela se debateu embaixo de mim, mas só parei quando não havia mais nenhuma gota daquele líquido.
Agora eu observava seu corpo inerte. Percebi que não havia arrependimentos, nem mesmo pena. Ela foi o melhor dos meus jantares. E nada do que aconteceu poderia mudar o que eu me transformei.