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terça-feira, 29 de novembro de 2011

O Sol

O Sol, o grande astro
Responsável por manter a vida
Ele traz o brilho, a luz, o calor
Ele nasce todos os dias

Sem ele, seria muito dificil de se viver
Nesse mundo só escuridão não caberia
Mas ele também complica a vida
Em sua mais discreta harmonia

Esse mesmo Sol que me mantêm viva
Me destroi aos poucos por dentro
Sem dó, nem piedade
Arranca meus sentimentos

Primeiro o sono
Depois a força de vontade
Agora a fome
O que virá mais tarde?

Queria poder matá-lo
Sem acabar com a claridade
Destruir de uma só vez esse sofrimento
Pôr fim nessa maldade

Cansada desse Sol
Mas necessitada dele
Vivo no paradoxo
Eu e ele

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Crepúsculo de Sangue

Abri os olhos. Eu ainda não sabia que essa noite pertubaria minha malvada essência. Caminhar é o que eu sempre faço, a procura da minha próxima vítima. Eu gosto de planejar, escolher cada detalhe, jogar. Prefiro mulheres, jovens, bonitas, saudáveis, com a jugular pulsante, geralmente prostitutas ou turistas perdidas.
A noite era ainda mais escura, já que a lua não nasceu dessa vez. Escura e deserta, o único som audível era meus passos ecoando no cimento da calçada, mas eu sou paciente.
Perto da esquina um cheiro perpassou meu olfato. Um cheiro não, O Cheiro. O inconfundível cheiro de sangue com um suave odor de algo familiar. Parei. Fechei os olhos e apreciei aquele cheiro. A essência dos deuses, a vítima perfeita..."O jogo vai começar."
Entrei na rua e vi o vulto. Bailava na noite com seu andar gracioso, silhueta esbelta, bem vestida, estonteantemente bonita.
Num piscar de olhos estava ao seu lado.
- Boa Noite. Por acaso está perdida?., ela se sobresaltou.
- Ah! Boa Noite. Não, não estou.
- E então o que faz essa hora, sozinha, na rua?
- Não costumo contar minha vida para estranhos. Se me der licença, prefiro andar só do que mal acompanhada.
Aquilo era muito estranho, não havia medo em sua voz. Nenhuma delas jamais fugiu de um diálogo noturno. Ela era diferente, mas não deixaria de ser minha vítima.
Puxei o seu braço fazendo-a virar-se. Ela protestou e em seguida olhou nos meus olhos. Nesse instante as imagens viajaram a mil por hora em minha mente. Eram todas as minhas lembranças, todas as minhas memórias.
- Pare com isso!, eu a soltei, recuei alguns passos com as mãos na cabeça.
Agora ela me analisava com uma ruga de dúvida na testa.
- Vampiro? Mas... isso é apenas uma lenda!
- Como você...? Que tipo de bruxaria é essa?
- Então existe mesmo! Você realmente é um vampiro?
- Sou. Quer dizer, não era para termos essa conversa... Perai, quem é você?
- Ninguém.
Ela voltou a caminhar e entrou num prédio abandonado. Eu ainda pertubado a segui.
-Vai amanhecer, e se as lendas estiverem certas... é melhor estar abrigado.
Minha cota de bondade já tinha ultrapassado qualquer limite aquela noite, agora estava conversando com o jantar. Ela falava demais, coisas humanas, assuntos diversos. Passaram-se horas. Ela já havia se alimentado e eu ficava cada vez mais sedento. Até que fui reconhecendo aqueles gestos, aquela voz, aquele odor familiar de tulipas... era ela!
Poucas coisas me lembravam a vida humana, mas agora eu lembrava dela e parecia recíproco. Eu não estava mais falando com o jantar. Me aproximei. De repente ela parou de falar e me olhou. "Como pude esquecê-la?"
- Você lembra?, perguntei.
Interpretei seu silêncio como um sim. E exterminei a distância entre nossos lábios. O gostinho de tutti-frutti do seu gloss ainda era o mesmo. A proximidade do seu pescoço, a pulsação de sua pele me fez exercitar meu autocontrole. Afastei-me. Percebi que ela sabia que aquela conversa não seria tão longa e só lhe restavam poucas horas.
- Não quero perder meus poucos minutos...
Nesse instante ela se aproximou e me beijou fervorosamente. Eu sabia que daquela experiência ela jamais voltaria e por uma gota de misericódia, me controlei a ponto de mantê-la o máximo de tempo viva.
O ar se tornou quente. Eu sentia seu coração, sua pulsação, seu sangue... rapidamente as roupas formavam um rastro no chão. Era estranhamente bom voltar a sentir uma sensação familiar e ao mesmo tempo tão diferente. Ela parecia conformada com seu destino e se esforçava numa tentativa de tornar seus últimos instantes mais prazerosos.
Eu sentia seu corpo nu colado ao meu. As mãos e a boca percorriam seus caminhos luxuriosos. Eu ouvia seus gemidos e sentia seus arrepios, suas veias transpareciam sua pele. A situação começava a fugir do controle. Eu não resistiria por mais tempo...
Até que seu delicado pescoço se mostrou liso e completo para mim. Sua artéria pulsava com a passagem do sangue cheiroso e delicioso...
Grito, era como música para meus ouvidos. Ela se debateu embaixo de mim, mas só parei quando não havia mais nenhuma gota daquele líquido.
Agora eu observava seu corpo inerte. Percebi que não havia arrependimentos, nem mesmo pena. Ela foi o melhor dos meus jantares. E nada do que aconteceu poderia mudar o que eu me transformei.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

You

What kind of person are you?
That cares about nothing.
What kind of animal are you?
That cares about no one.
What kind of glory have you?
If there's nothing you can win.
Why do you like this?
Hurt yourself at the same time hurt me.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Ônibus - Parte 2

Continuação...

Seus olhares se encontraram, ela tímida desviou.
O ônibus começou a ficar ainda mais cheio e eles acabaram se aproximando. Cada vez mais próximos ficou impossível desviar o olhar. E eles devoravam um ao outro apenas com os olhos. A fome crescia a medida que o ônibus enchia, até que somente milímetros separavam seus corpos.
No segundo tranco, eles se tocaram. Ela segurou o braço dele e ele sua cintura. Sentia a respiração forte em seu pescoço delicado. As batidas dos corações se confundiam na música sensual dos amantes.
Os lábios se tocaram, eles se beijaram.
O ônibus para os dois desapareceu, só existiam um ao outro, o mundo todo se apagou. As mãos começaram a passear apalpando todo o corpo. De cima para baixo, de baixo para cima num ritmo quente e frenético.
As pessoas ao redor procuravam se afastar. A cena tornava-se imprópria para o local, mas eles não viam, só sentiam as batidas, o frenesi, a respiração acelerada, o calor.
Calor esse, que queimava a pele. Então começaram pelo casaco, depois a camisa... As pessoas já significativamente afastadas começaram à protestar.
"Que absurdo!"
"Blasfêmia!"
Os dois num desvario apaixonado desafiando as leis da física, tornavam-se um único corpo. O beijo já era interrompido pela falta de fôlego, as respirações e batimentos acelerados, os arrepios percorriam o corpo, as mãos puxavam e apertavam cabelos, costas, braços, pernas...
O fogo deles enfestavam a atmosfera. O calor já era sentido por algumas pessoas que pararam de protestar e observavam sem ação.
O fogo e o calor aumentavam e contagiavam. Muitos queriam participar daquele ato impulsivo, inconsequente. Todavia não havia espaço para mais ninguém naquele infinito particular. Só existiam eles em seus mundos delirantes.
A atmosfera se transformava num inferno de desejos antes reprimidos, agora escancarados. O ar era pura luxúria. No ápice do prazer, eles gemiam baixinho no ouvido do outro.
E pondo um fim na satisfação da lascívia, acordaram de seus desvarios juvenis como se absolutamente nada tivesse acontecido. Recompuseram-se e voltaram sorrindo à realidade, enquanto as pessoas ao redor olhavam abismadas.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Ônibus - Parte 1

Obs: Não foi um sonho.

Frio dos pólos em pleno trópico de capricónio. Sair da cama é realmente difícil, mas as obrigações nos arrancam do calorzinho de nossa casa.
Vinte anos e ter que pegar ônibus é uma de suas privações, ainda não sabe dirigir e não possui carro. Mas ela está no caminho certo, indo para a faculdade para tornar-se independente.
O vento está muito forte no ponto. Ela fecha bastante o casaco e se abraça. Se arrepende de ter colocado a saia, apesar de ainda acreditar na possibilidade de fazer calor. Seus cabelos negros dançam pelo ar, num vai e vem furioso como as ondas do mar revolto.
Pelo menos não está chuvendo...
Depois de uma espera razoável, ela avista seu ônibus, faz o sinal e sobe. Então percebe que deveria ter esperado o próximo, já que este estava com a lotação além do agradável.
Procurou e encontrou um espaço naquele corredor sem cadeiras entre o meio e o fundo do ônibus, extamente entre um homem e a janela. Pedindo pacientemente licença e se espremendo chegou no lugar.
De costas para o estreito pedaço de parede que separavam as janelas e de frente para o homem, com uma mão na janela superior e a outra na inferior, ela enfim se acomodou.
Ele olhou-a.
Seus cabelos lisos e compridos tamborilavam ao passar do vento vindo das janelas, seus lábios vermelhos davam água na boca, sua pele alva com certas pintas que se sobresaíam no pescoço e no colo, que aliás foi onde ele deixou seus olhos claros demorarem. Seus seios pequenos porém rechochundos e pontudos mostravam-se ao decote e transpareciam à blusa (agora com o casaco aberto), deixando claro a falta do sutiã. Descendo o olhar parou nas coxas que se sobresaiam à saia mediana.
O ônibus deu um tranco e ela se desequilibrou. Para não cair se apoiou no peito dele à sua frente.
Sua mão foi tateando do peito à barriga e de volta ao mesmo. Foi um movimento involuntário.
"Ups! Desculpa! Me desequilibrei."
Ele sorriu, um sorriso branco e sedutor, e ela vermelha voltou a posição inicial. Foi então que reparou...
Cabelos despojados igualmente negros como ébano, olhos cor de mel, boca rosada. Nesse momento ela mordeu os lábios interrompendo um suspiro forte... seus músculos disputavam uma luta muda com a camisa para saber quem era mais resistente e seus braços se mostravam fortes e perfeitos sob a pele morena como se pertencessem à Hércules.

domingo, 3 de julho de 2011

Desvario em Sono: Premonição

Navio Petra, Domingo, 4:30 da tarde...
- Pai, já embarquei. Pode ficar tranquilo.
Ela desligou o telefone de última geração e guardou-o na bolsa. Chegando a uma área comum do navio com vista para o mar, debruçou-se no parapeito e observou a paisagem.
- Linda, não? - Perguntou uma voz viril.
Ela se virou e avistou um belo e cortês jovem. Seu sorriso era tão sedutor que a distraiu por um instante:
- Quê?
- A vista... bonita não é? Prazer sou Erick.
- Anita. É realmente uma vista muito bela.
Passaram-se alguns minutos de conversa e já pareciam amigos íntimos. Foi então que ela avistou uma nuvem ao norte. Muito escura. Carregada. Negra. Um ébano em meio a claridade do céu azulado. Um puxão interrompeu sua admiração.
- Moça! Moça! Você viu minha mamãe? - uma garotinha por volta dos seus 6, 7 anos com um cachorrinho Yorkshire aos seus calcanhares, puxava sua calça pedindo atenção.
- Não. Como sua mãe... - Sua frase foi interrompida por um trovão seguido de um vento gélido. E então a nuvem, que arrastada pelo vento já chegava à leste, precipitou. A chuva acompanhada de enormes blocos de gelo caiu como uma pedra gigante no mar, que começou um rápido recuo.
Anita já tinha ideia do que viria a seguir e percebeu que Erick também. Ele pegou a criança no colo e ela o cachorro, em seguida correram em direção as escadas. O navio era enorme e vertical como um prédio flutuante e continuava atracado. Eles subiram até o ultimo andar...
- Olha que legal! - a criança apontava para o vidro da cabine do último andar em direção ao mar.
- Meu Deus! - exclamou Erick
Uma onda gigante se formou no horizonte e vinha com grande velocidade no sentido da praia. Qualquer movimento, à essa altura, era inútil. E então a onda, arrastando tudo que vinha à sua frente, colidiu com toda força no navio.
Primeiramente a vidraça resistiu, mas logo em seguida barras de ferro arrastadas pela fúria marinha perfuraram a cabine como agulhas penetrando numa pele fina. Eles escaparam das primeiras barras e alguns estilhaços do vidro feriram seus rostos.
A água salgada invadiu violentamente o cubículo que pressionou todos contra a parede. O nível subiu rápido e em poucos segundos todos estavam submersos.  Não obstante o pior veio em seguida. Uma segunda onda concluiu o desastre. Ela assistiu a última barra atravessar o garoto e logo depois a garotinha. A sensação de câmera lenta tornou o momento ainda mais agonizante. Silêncio. Escuridão.
E então com um sobressalto ela estava de volta ao parapeito, observando a paisagem.
- Linda, não? - Perguntou aquela voz já conhecida.
Ela se virou e avistou aquele belo e cortês jovem de sorriso sedutor, mas dessa vez não a distraiu e sim a assustou:
- Quê? - Ela falou ofegante e confusa, com aquela sensação de déjà vu.
- A vista... bonita não é? Prazer sou Erick.
Anita, muito desnorteada, não conseguiu responder.
- Olá! Você está bem?
E, de supetão, a ficha caiu. Ela percebeu que tinha acabado de se deparar com algo muito maior que um simples déjà vu, acabara de ter uma premonição.
- Estou. Mas é por pouco tempo.
Ela explicou rápidamente. Ele ficou meio confuso, todavia algo na voz dela o fez acreditar. Foi então que ela avistou aquela nuvem escura, carregada, negra, ao norte. Dessa vez não houve puxão.
- Moça! Moça! Você viu minha mamãe? - a imagem da garotinha sendo perfurada perpassou seus olhos.
- Não temos tempo! Precisamos ir AGORA! - O trovão seguido do mesmo vento gélido ficaram às suas costas. Erick com a garota no colo e Anita com o cãozinho correram, mas desta vez para fora do navio.
No Estacionamento.
- Cuide bem da minha belezura, viu rapaz? - um homem bem vestido saía de sua ferrari com a chave em mãos.
 Nesse instante, Erick arrancou a chave de suas mãos, e todos entraram no carro.
- MEU CARRO! MEU BEBÊ! LADRÃO!
Eles já estavam fora do navio quando a nuvem precipitou, e o mar recuou.
Nas ruas da cidade o movimento era normal. Para fugir do trânsito pegaram uns atalhos e saíram numa estrada oposta ao litoral, saindo da cidade em direção ao interior do continente.
Acima de 300 quilômetros por hora, eles se distânciavam do mar. A garotinha carinhosamente afagava seu cachorrinho, alheia à tudo o que acontecia.
Anita olhou para trás. "Que Lindo!", pensou. Se não fosse tão assustador e trágico seria o comentário perfeito para a paisagem da cidade sendo engolida por uma onda colossal.