Continuação...
Seus olhares se encontraram, ela tímida desviou.
O ônibus começou a ficar ainda mais cheio e eles acabaram se aproximando. Cada vez mais próximos ficou impossível desviar o olhar. E eles devoravam um ao outro apenas com os olhos. A fome crescia a medida que o ônibus enchia, até que somente milímetros separavam seus corpos.
No segundo tranco, eles se tocaram. Ela segurou o braço dele e ele sua cintura. Sentia a respiração forte em seu pescoço delicado. As batidas dos corações se confundiam na música sensual dos amantes.
Os lábios se tocaram, eles se beijaram.
O ônibus para os dois desapareceu, só existiam um ao outro, o mundo todo se apagou. As mãos começaram a passear apalpando todo o corpo. De cima para baixo, de baixo para cima num ritmo quente e frenético.
As pessoas ao redor procuravam se afastar. A cena tornava-se imprópria para o local, mas eles não viam, só sentiam as batidas, o frenesi, a respiração acelerada, o calor.
Calor esse, que queimava a pele. Então começaram pelo casaco, depois a camisa... As pessoas já significativamente afastadas começaram à protestar.
"Que absurdo!"
"Blasfêmia!"
Os dois num desvario apaixonado desafiando as leis da física, tornavam-se um único corpo. O beijo já era interrompido pela falta de fôlego, as respirações e batimentos acelerados, os arrepios percorriam o corpo, as mãos puxavam e apertavam cabelos, costas, braços, pernas...
O fogo deles enfestavam a atmosfera. O calor já era sentido por algumas pessoas que pararam de protestar e observavam sem ação.
O fogo e o calor aumentavam e contagiavam. Muitos queriam participar daquele ato impulsivo, inconsequente. Todavia não havia espaço para mais ninguém naquele infinito particular. Só existiam eles em seus mundos delirantes.
A atmosfera se transformava num inferno de desejos antes reprimidos, agora escancarados. O ar era pura luxúria. No ápice do prazer, eles gemiam baixinho no ouvido do outro.
E pondo um fim na satisfação da lascívia, acordaram de seus desvarios juvenis como se absolutamente nada tivesse acontecido. Recompuseram-se e voltaram sorrindo à realidade, enquanto as pessoas ao redor olhavam abismadas.
A EPIDEMIA DO SUICÍDIO DO TRANSGÊNERO
Há 10 anos


2 comentários:
Adorei a história hauhauahua e o suspense da parte II KKKKK
Muito tempo que não vinha aqui [alimentar os peixinhos, HAHA] e já me deparo com isso... UAU!
Amei esse devaneio em especial. Ótima narrativa, ótima escolha de palavras. Amei a ironia e o lado cômico na escolha do lugar e da situação, que normalmente incomoda tanta gente, ser abordada dessa forma, digamos quente.
Você sabe que esse tema prende qualquer pessoa e soube se aproveitar muito bem disso. KKKKKKKKK
Ah, preciso frisar que amei o uso da expressão "infinito particular". #MarisaFeelings HAHA
Postar um comentário